Do solstício de Verão ao final de Agosto

Eis que chegamos ao final de Agosto, quando o dia de luz já perdeu quase duas horas em relação ao dia do solstício, uma de manhã, outra à tarde!

As chuvas da última semana (70 l/m2 em Belazaima) fizeram emanar aquele gostoso cheiro a terra molhada, tão característico depois das primeiras chuvas do Outono. Que este ano tenham vindo mais cedo foi providencial, pois os efeitos de uma Primavera seca já se faziam bem sentir.

O Verão até começou meteorologicamente ameno, com uns 11 l/m2 de chuva ainda no final de Junho, mas logo no princípio de Julho tivemos uma onda de calor agreste e prolongada, que se iniciou com uma assustadora noite de vento de leste. A temperatura “saltou” para 29ºC logo ao início da madrugada de 2 de Julho, o que fez dele um dos raros dias em que a temperatura não desceu abaixo de 25ºC ao longo das suas 24h, e a máxima atingiu 42. As consequências não se fizeram esperar: um incêndio iniciado na zona de Vouzela rapidamente chegou a Águeda, e se não chegou a Belazaima foi porque o Rei Vento não o quis. Chegou sim o fumo, muito fumo, que no dia 3 quase tapou o sol e fez descer a máxima vários ºC. Folhas de eucalipto queimadas também não faltaram. Houve escaldão nos frutos mas a dimensão dos danos foi limitada, para o que terá contribuído um tratamento com um produto à base de Silício.

O sol filtrado pelo fumo da tarde de 3 de Julho
Escaldão num fruto
Nem tudo foi cinzento no início de Julho: vejam esta aranha-caranguejo-das-flores completamente branca. Podem mudar de cor e por isso encontram-se frequentemente com cores completamente diferentes

No pomar, para além dos trabalhos habituais, um foi particularmente exigente este ano: a monda. Como a Primavera, e particularmente o mês de Abril, o da floração, foi seco, o vingamento dos frutos foi elevado, o que obrigou à remoção de boa parte deles, sob pena de ficarem muito pequenos. Isso normalmente já é necessário numa ou noutra variedade, mas este ano foi praticamente em todas.

O bichado também não deu tréguas a partir do início de Julho, obrigando a tratamentos regulares com o vírus da granulose e com o Bacillus thuringiensis. Por outro lado, a mosca do mediterrêneo, de controlo mais difícil em fruticultura biológica, não tem sido preocupante.

A borboleta (traça) do bichado (Cydia pomonella) raramente é vista em liberdade, pois tem hábitos crepusculares e é discreta. Mas esta foi observada em pleno dia, na superfície de uma maçã.
A larva do bichado, essa sim vê-se com muito mais frequência, embora passe a maior parte da sua vida dentro do fruto, a alimentar-se. Quando sai, fica vulnerável, pois é um petisco para as aves, por isso busca rapidamente refúgio.

A colheita da maçã iniciou-se em meados de Agosto com a variedade Gaia, logo seguida da Gemini. Foi uma boa colheita, com uma percentagem baixa de furos com defeito. Em produção biológica uma certa fracção de frutos com defeito é inevitável, porque o que se procura não é eliminar os agentes de dano (insectos e aves, sobretudo), mas mantê-los sob bom equilíbrio. Uma percentagem de frutos com danos abaixo de 10% considera-se um excelente objectivo.

Maçãs da variedade Gaia
Frutos colhidos
Maçãs da variedade Gemini
Exemplo de fruto com dano, provavelmente originalmente de aves. No entanto, após um acesso ser criado, insectos como vespas ou formigas aproveitam a oportunidade.

A colheita é sempre uma boa oportunidade para observar insectos, os amigos e os “adversários”, sendo que nem sempre é fácil distinguir entre uns e outros, e às vezes até ocorre que um insecto pode ser “adversário” numa fase da vida e amigo noutra. Num sistema agrícola com bom equilíbrio ecológico, na prática, a grande maioria dos organismos considerados “nocivos” realmente não causa danos significativos. Entre os insectos, a mosca-da-fruta e o bichado são mesmo as excepções. Mas são duas espécies entre as centenas que se movem por aí! Por isso, temos muito mais a admirar do que a temer!

Um insecto observado com muita frequência este ano é o Himacerus mirmicoides, claramente um auxiliar, pois alimenta-se de pulgões, larvas e ovos de outros insectos
As aranhas, em geral, são boas amigas. Esta é uma das mais frequentemente observadas durante a colheita: é uma Evarcha jucunda, da família Salticidae. É capaz de saltar com notável agilidade e precisão.
Embora se possa assemelhar a um gafanhoto, este insecto é um grilo da espécie Phaneroptera nana (esperança-menor). Tem aparecido com frequência nas maçãs e tem “credenciais” para ser considerado nocivo (alimentam-se, entre outros, de frutos), mas… não é giro?
A amiguíssima joaninha-de-7-pintas encontra-se com frequência resguardada junto ao píncaro das maçãs.
Há vários outros insectos que apreciam o abrigo de um píncaro de maçã. Chegam-se a encontrar colónias completas de formigas!
Um auxiliar não precisa de ser grande para ser precioso. Esta aranha-de-pé-de-pente, da espécie Platnickina tincta alimenta-se de ácaros e larvas, entre outros. Tem uma invulgar capacidade de “voo”, usando a sua seda para ser levada pelo vento!
Deu trabalho captar esta magnífica Iphiclides feisthamelii, pois param pouco tempo em cada local. Mas acabou por me dar esse gosto, pousando numa planta de feto!
Embora associado às plantas leguminosas, este Riptortus pedestris tem aparecido com frequência no entorno frutícola
Este Boesus maritimus foi uma observação nova. Associado a ambientes costeiros e salinos, como dunas, este apareceu num pomar da Quinta. O que o terá atraído para cá?

E depois desta pequena viagem pelo maravilhoso mundo dos insectos, as colheitas continuam, com novos e inesperados encontros podendo acontecer a cada instante! Até breve!

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